“A COMIDA É O MAIOR PROBLEMA DE SAÚDE NO MUNDO”

“A COMIDA É O MAIOR PROBLEMA DE SAÚDE NO MUNDO”
Esse é o tema da entrevista feita com a a ativista Vandana Shiva, concedida ao jornal espanhol ABC, traduzida pelo Cepat e publicada pelo IHU Unisinos:
 
ABC: A primeira pergunta você a faz no título de seu livro: quem alimenta realmente o mundo?
 
Vandana Shiva: Nas últimas décadas, tivemos essa espécie de ilusão de que os químicos e as corporações são os que alimentam o mundo, mas o que realmente alimenta o mundo é a terra, o sol, a água, a fotossíntese, os insetos que polinizam os cultivos, os micro-organismos que produzem nutrientes… Em segundo lugar, somos nós, mulheres, que nutrimos esse mundo, todavia 70% da comida procede dos pequenos agricultores. Isso é a comida real, porque o que chamamos de comida e compramos nos supermercados é realmente um produto vazio nutricionalmente, tóxico, não é comida, e não está alimentando o mundo.
Então, a comida deixou de ser uma fonte de saúde e alimento?
Sim, a comida deixou de ser uma fonte de nutrientes e se tornou um produto, algo com o qual se especula e se obtém um benefício econômico. A comida é o maior problema de saúde que há no mundo, e também é o maior problema para a saúde do planeta. 75% das doenças e problemas do planeta e dos problemas de saúde da humanidade procedem de uma agricultura globalizada e industrial. A grande ameaça para o bem-estar do planeta e a saúde de seus habitantes é a agricultura globalizada e industrial e a forma de produzir, processar e distribuir os alimentos.
 
Quais riscos enfrentamos se não mudarmos a forma de nos alimentar e de produzir o que comemos?
 Tendo em conta que 75% da destruição do planeta procede de um sistema que nos traz 25% dos alimentos, e que estes alimentos nos adoecem, só necessitamos aumentar ligeiramente nossa dieta globalizada e industrial para matar o planeta. Já quase temos um planeta morto, temos um montão de gente doente e a fome se tornará ainda pior. Se continuarmos assim, dentro de um século a partida terá se encerrado para nossa espécie, porque as condições que nos permitem viver terão desaparecido.
 
E essa mudança para uma agricultura mais sustentável é uma boa maneira de lutar contra o aquecimento global?
 
É a única solução. A agricultura industrializada é uma atividade que precisa de combustíveis fósseis para seu funcionamento, e isso tem alguns custos financeiros e ecológicos astronômicos. Nos Estados Unidos, por exemplo, cada trabalhador agrícola tem mais de 250 escravos energéticos ocultos. O certo é que 40% das emissões responsáveis pela mudança climática procedem deste sistema agrícola global que se baseia em combustíveis fósseis, seja para fabricar fertilizantes, mover a maquinaria agrícola ou transportar, sem a menor sensatez, os alimentos de um lugar para outro percorrendo milhares de quilômetros.
Seu trabalho se centrou em demonstrar que os pesticidas e organismos modificados geneticamente são o verdadeiro inimigo. O que tem a dizer aos que acusam você de ser contra o progresso?
Eu não acredito que o progresso tenha algo a ver com o desastre de Bhopal, com o vazamento de gás venenoso de uma fábrica de produtos químicos. Todas as substâncias químicas utilizadas na indústria da agricultura provêm da indústria da guerra. Sendo assim, eu não sou contra o progresso, mas contra os “cartéis de veneno”, que são as grandes corporações que nos roubam as sementes.
 
Em seu livro, você diz que a chamada Revolução Verde teve efeitos muito prejudiciais na Índia, e que uma revolução semelhante está sendo exportada para a África. O que está acontecendo?
 
Os líderes do G8 e filantropos como Bill Gates estão apoiando a implantação na África de produtos químicos e sementes comerciais através da aliança para uma Revolução Verde na África. Esta é a receita para a destruição do continente africano e a carestia, que já tem ramificações em todo o mundo. Na Índia, antes da Revolução Verde, em 1965, não havia carestia. Em Punjab, que era a região mais próspera da Índia, o solo e os aquíferos se esgotaram e a biodiversidade desapareceu pelo emprego desses produtos químicos. Cegamente, está se desenhando um futuro sombrio para a África.
 
Edição: Cecília Figueiredo
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